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Sustentabilidade Corporativa

O que é ESG e como dar os primeiros passos. Comece aqui.

em
16/10/2021

Nos últimos anos, assistimos à ascensão meteórica da sigla ESG no universo corporativo.

Três letrinhas que refletem as dimensões centrais e inseparáveis da sustentabilidade empresarial e que passaram a atrair os holofotes de lideranças corporativas, investidores e da grande mídia com estrondoso magnetismo.

Do inglês, Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança).

ESG diz respeito a mudanças profundas e urgentes na maneira como as empresas desenvolvem e distribuem produtos, prestam serviços e se relacionam com suas partes interessadas, adicionando aspectos socioambientais e de governança em suas estratégias.

O modelo econômico atual, insustentável, está afetando gravemente e, muitas vezes, de forma irreversível a capacidade de suporte ecológico do planeta, além de produzir inúmeros reveses sociais.

No entanto, a sigla ESG sugere a criação de um modelo econômico mais refinado e holístico, capaz de conectar o sucesso das empresas à criação de valor socioambiental e de governança.

“E” de Environmental (Ambiental)

Diz respeito a iniciativas empresariais relacionadas à proteção e regeneração ambiental. Leva em conta o delicado equilíbrio dos ecossistemas e seus ciclos regenerativos. Alguns temas relacionados a essa dimensão são:

  • Água;
  • Eficiência energética;
  • Biodiversidade;
  • Clima;
  • Preservação de florestas;
  • Lixo;
  • Uso do solo;
  • Toxicidade de produtos;
  • Bem-estar e dignidade animal.

“S” de Social (Social)

Está relacionado à saúde, bem-estar e prosperidade das pessoas que, de um jeito ou de outro, são afetadas pelas organizações. Entre os temas relacionados a essa dimensão estão:

  • Saúde física e emocional;
  • Segurança de colaboradores;
  • Educação;
  • Renda;
  • Comunidades;
  • Segurança alimentar;
  • Comércio justo;
  • Direitos humanos.

“G” de Governance (Governança)

Se refere à maneira como as organizações são administradas, incluindo suas normas, regras, códigos de conduta e abordagens de gestão. Também, diz respeito a forma como estão estruturadas, por exemplo: sócios, board (Conselho de Administração), comitês de sustentabilidade, presidência, diretoria, órgãos de auditora e controle…

Alguns temas relacionados à Governança Corporativa são:

  • Transparência;
  • Prestação de contas (Accountability)
  • Compliance;
  • Ética e integridade;
  • Inovação;
  • Diversidade e inclusão;
  • Responsabilidade Social Corporativa (RSC);
  • Sucessão empresarial.

Agora, você deve estar tentando imaginar até que ponto tudo isso pode tornar as rotinas empresariais mais onerosas e desafiadoras, não é mesmo?

E se eu te dissesse que, na verdade, é rigorosamente o oposto disso? Que sustentabilidade não rivaliza com lucratividade e que empresas com desempenhos socioambientais e de governança superiores tendem a se tornar mais competitivas e resilientes a riscos?

Marcas como Nike, Nestlé, Wal-Mart, Novo Nordisk, Danone e Natura são só alguns exemplos de organizações que apostaram no alinhamento de seus interesses corporativos com um claro propósito de causar impacto socioambiental positivo e, por terem saído na frente, elas já estão colhendo frutos.

Hoje, se destacam pela lealdade de seus públicos, redução de custos operacionais, valorização de suas ações nos mercados de capitais, atração e retenção de talentos, maior produtividade, acesso a crédito barato e muitos outros diferenciais competitivos.

No decorrer desse artigo, você vai entender qual a importância do ESG para as empresas e conhecer uma abordagem de gestão dividida em quatro etapas para incorporar escopos ambientais, sociais e de governança aos negócios.

Custos socioambientais.

Através da formação de preços ao consumidor, empresas podem cobrir custos, despesas operacionais e tornar suas atividades lucrativas.

A correta formação de preços é uma condição necessária para o sucesso nos negócios, afinal, preço é a única variável do composto de marketing capaz de gerar receitas e financiar as cadeias produtivas: aquisição de matérias primas, fabricação, armazenagem, distribuição, marketing, vendas…

Mas, pare por um minuto e pense, como são compensados os custos ambientais e sociais que, invariavelmente, são gerados em cada uma dessas etapas?

Bem, a verdade é que não são. Acontece que o modelo econômico atual é um modelo perigosamente disfuncional, bastante eficiente em produzir receitas privadas a custos socioambientais públicos.

Segundo a Global Footprint Network, as cadeias produtivas globais consomem 74% mais recursos naturais do que o planeta é capaz de regenerar, em um ano.

E, por isso, estamos assistindo a uma alarmante redução da biodiversidade planetária, ao agravamento da crise climática e ao surgimento de todo tipo de mazelas sociais, com efeitos nas tensões geopolíticas.

Considere, por exemplo, que em 30 anos a população mundial alcançará a marca de 9,7 bilhões de habitantes. Não é sensato pressupor que, com o ritmo frenético das cadeias produtivas globais, será possível garantir a manutenção dos recursos naturais e a ampliação do bem-estar humano, quando isso já se tornou bastante desafiador, hoje.

Para dar uma ideia, a Organização das Nações Unidas Para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que a produção de alimentos precisará crescer 70% para suportar o aumento populacional das próximas três décadas.

Fonte: Perspectivas da População Mundial – ONU, 2019.

Tudo isso parece um tanto quanto apocalíptico, eu sei, mas, o fato é que o modelo econômico atual virou o planeta de ponta cabeça e criou um passivo socioambiental sem precedentes em toda a história humana.

E, ainda que as coisas tenham funcionado assim nos últimos 150 anos, chegamos ao ponto em que precisamos confrontar uma verdade inconveniente: é impossível crescer infinitamente.

No entanto, empresas são guiadas por lucratividade e, por isso, precisamos falar a linguagem dos negócios para convencer suas lideranças a adotarem abordagens de gestão orientadas não apenas à criação de valor econômico, mas, à criação de valor compartilhado, de maneira consistente e duradoura.

O que é valor compartilhado?

Valor compartilhado é o que acontece quando o sucesso nos negócios está conectado à criação de valor socioambiental.

Em outras palavras, uma empresa cria valor compartilhado quando produz valor econômico ao passo em que atua em favor da sociedade e do meio ambiente.

Ao adotar o valor compartilhado como premissa para os negócios, as empresas passam a lidar de maneira mais íntima com os reais interesses da sociedade, criando as bases para uma atuação mais ética e voltada para o bem-comum.

Em um artigo publicado em 2011 na Harvard Business Review, Michael Porter e Mark R. Kramer avaliaram que o propósito das empresas deve ser definido a partir da criação de valor compartilhado e não apenas a partir do lucro.

Para Porter e Kramer, as abordagens empresariais voltadas para gerar valor compartilhado fomentarão “(…) um novo ciclo de inovação e expansão da produtividade na economia global (…)”.

E, segundo eles, há três caminhos para realizar isso: 1) reconcebendo produtos e mercados, 2) redefinindo a produtividade na cadeia de valor e 3) promovendo o desenvolvimento de clusters locais.

1. Reconcebendo produtos e mercados.

Por exemplo, “(…) fabricantes de alimentos que tradicionalmente se concentraram em sabor e quantidade para gerar mais e mais consumo estão se reorientando para a necessidade fundamental de uma melhor nutrição”.

2. Redefinindo a produtividade na cadeia de valor.

Do ponto de vista da gestão de riscos, os impactos negativos gerados pelas empresas podem acarretar custos para os negócios, mesmo que não haja regulamentação ou taxação de recursos.

Empresas em estágios mais maduros de sustentabilidade consideram que os impactos socioambientais negativos, causados ou influenciados por elas, podem delinear ameaças na forma de custos e comprometer, mais cedo ou mais tarde, a sua margem de lucro, por exemplo:

  • Quando há mal-uso dos recursos naturais imprescindíveis às suas atividades, acarretando em sua escassez;
  • Quando as condições de trabalho afetam a saúde e o bem-estar de seus colaboradores e comunidades próximas;
  • Quando, em decorrência de uma má gestão de riscos, a empresa vier a provocar desastres ambientais.
  • A incorporação de custos pode, também, ocorrer com o surgimento de novos impostos para a compensação de impactos socioambientais negativos de atividades setoriais – uma tendência que cresce mundo afora.

3. Promovendo o desenvolvimento de clusters locais.

Criar clusters locais ajuda a melhorar a produtividade da empresa e, também, as condições estruturais do próprio cluster, por exemplo:

  • Ações para qualificar ou atrair fornecedores capacitados em torno das principais bases de operações da empresa (clusters) contribui para fortalecer a produtividade e, ao mesmo tempo, a prosperidade de comunidades próximas, com efeitos na geração indireta de empregos em fornecedores, além da criação de novos negócios e serviços de apoio.
  • Iniciativas para o desenvolvimento de mão de obra qualificada aumenta a oferta de profissionais capacitados naquela localidade.

Para enraizar o valor compartilhado no negócio, indo além de ações pontuais e desconexas, um caminho é utilizar o diagrama da cadeia de valor, também apresentado por Porter, em 1985.

A cadeia de valor de Porter espelha como uma empresa incorpora insumos, se relaciona com fornecedores, fabrica e distribui produtos e, ainda, como desenvolve o seu marketing, vendas e pós-vendas. Tudo isso, para criar, entregar e capturar valor:

  • Uma empresa cria valor quando desenvolve produtos ou serviços que resolvem problemas específicos e fazem sentido para as pessoas;
  • Entrega valor quando distribui com eficiência esses produtos (ou presta serviços) em seus mercados-alvo;
  • E, captura valor quando realiza as duas etapas anteriores de maneira lucrativa, fortalecendo seus diferenciais competitivos.

Logo, a maneira como as lideranças empresariais decidem em cada etapa da cadeia de valor refletirá no poder de precificação de produtos e serviços, no engajamento de públicos-alvo, nos custos operacionais e, finalmente, em suas margens de lucro.

A cadeia de valor de Porter.

Para criar valor compartilhado, uma empresa pode incorporar aspectos ESG a sua cadeia de valor, relacionando iniciativas voltadas para o aumento de sua margem de lucro com o alcance de objetivos socioambientais e vice-versa, por exemplo:

  • Em relação à sua infraestrutura:

Incorporando bens de capital capazes de melhorar a eficiência energética dos sistemas de produção.

  • Quanto aos seus recursos humanos:

Condicionando a premiação de executivos ao alcance de metas de governança, metas ambientais e sociais, além das metas de desempenho financeiro.

  • Quanto ao desenvolvimento tecnológico:

Utilizando tecnologias capazes de gerar uma maior ecoeficiência nas operações, por exemplo: reduzindo o uso de determinada matéria prima por unidade de produto fabricado.

  • Aquisição e compras:

Condicionando boas práticas socioambientais para que fornecedores possam realizar transações comerciais com a empresa.

  • Logística de entrada e de saída:

Tomando medidas para mitigar a pegada de carbono (CO²) no transporte de insumos e produtos acabados.

  • Operações:

Inovando para criar produtos mais duráveis e circulares.

  • Marketing e vendas:

Criando iniciativas comerciais e institucionais conectadas a uma proposta única de valor além do retorno de curto prazo.

  • Serviços:

Criando serviços para atender às demandas dos principais stakeholders da empresa e não apenas de consumidores e clientes.

Para Poter e Kramer, as empresas podem começar a criar valor compartilhado a partir de algumas perguntas-chave, tais como:

  • O design de um determinado produto poderia produzir benefícios socioambientais maiores?
  • As operações da empresa maximizam a eficiência no uso de energia e da água?
  • Como as instalações físicas e as operações da empresa poderiam impactar, positivamente, comunidades próximas?
  • Os gargalos de um cluster local estão diminuindo a eficiência e a velocidade de inovação? De que maneira?
  • Como tornar comunidades próximas em ambientes mais propícios para os negócios?

No entanto, a criação de valor compartilhado, muitas vezes, esbarra em uma mentalidade empresarial tradicional, marcadamente voltada para a maximização do lucro. Continue lendo.

Em 1972, o aclamado economista Milton Friedman (Nobel de economia em 1976) defendeu em seu famoso estudo “The social responsibility of business is to increase its profits” que as lideranças empresariais sensíveis à responsabilidade socioambiental das empresas estariam defendendo “(…) o puro e simples socialismo”.

Com o respaldo de Friedman, a empresa típica das últimas décadas foi guiada pelo fomento ao consumo e o retorno de curto prazo.

Friedman influenciou, por assim dizer, CEOs que, nas décadas seguintes, guiariam suas estratégias corporativas convictos de que a única responsabilidade das empresas era gerar lucro aos seus acionistas.

Foi uma questão de tempo até que os impactos socioambientais gerados em todos os elos das cadeias de suprimentos se tornassem, ironicamente, os maiores entraves para a prosperidade planetária.

Não é à toa que, hoje, a sustentabilidade empresarial esteja em grande evidência em arenas de debates antes reservadas a questões estritamente financeiras.

Um bom exemplo é o World Economic Forum onde, anualmente, lideranças políticas, empresariais e da sociedade civil organizada de todas as nações do mundo se reúnem para discutir os desafios da economia global. Em 2020, os temas abordados no WEF foram:

  • Além da geopolítica.

Mudanças climáticas, cooperação e conflitos mundiais.

  • Sociedade e o futuro do trabalho.

Educação e tecnologia, inteligência artificial, crescimento populacional e empregos.

  • Tecnologia para o bem.

Tecnologias capazes de acabar com a escravidão moderna, tendências tecnológicas para a mobilidade e ciência de dados para combater o racismo.

  • Economias mais justas.

Inclusão de stakeholders nos negócios; economia circular; dignidade de pessoas em situação vulnerável e preservação do meio ambiente.

  • Futuros saudáveis.

Cuidados com a saúde física e mental.

  • Melhores negócios.

Transição energética, investimento verde e criação de valor para a sustentabilidade.

  • Como salvar o planeta.

Mudanças climáticas, transporte descarbonizado, plástico e meio ambiente e construções sustentáveis.

Sustentabilidade empresarial e alavancagem de valor.

Em 2009, o MIT Sloan Management Review e o Boston Consulting Group revelaram números promissores em uma pesquisa intitulada The Business of Sustainability, a primeira de uma série para avaliar como executivos e especialistas de empresas líderes em sustentabilidade enxergavam os resultados obtidos em suas iniciativas socioambientais e quais estratégias adotavam para monetizar seus esforços.

A pesquisa sondou cerca de 1.500 executivos e especialistas de diversas áreas como engenharia civil, administração e ciência da energia.

Vale destacar que enquanto os entrevistados menos experientes em sustentabilidade, em sua maioria, relacionaram o tema quase que exclusivamente a seus aspectos ambientais, legais e regulatórios, os mais experientes demonstraram uma visão mais abrangente, indo além dos limites das iniciativas “verdes”, posicionando a sustentabilidade como um drive para o desenvolvimento dos negócios:

  • 68% dos executivos com mais experiência em iniciativas sustentáveis declararam que os investimentos de suas empresas em sustentabilidade geraram retorno financeiro material ou incremental.
  • Na visão da maioria dos profissionais menos experientes, as empresas tinham dificuldade para delinear um business case para a sustentabilidade.
  • No entanto, para a maior parte dos entrevistados especialistas e líderes mais experientes, suas empresas haviam encontrado business cases capazes de refletir benefícios tangíveis e intangíveis de sustentabilidade.
  • Os especialistas e líderes mais experientes também destacaram que para implantar estratégias sustentáveis com êxito, as empresas devem aprender e incorporar algumas abordagens e iniciativas:

– Abordagens de pensamento sistêmico, com estruturas capazes de modelar os resultados das ações de sustentabilidade em longo prazo.

– Parcerias e alianças estratégicas, envolvendo suas principais partes interessadas (stakeholders), reguladores e outros influenciadores;

– A capacidade de projetar cenários e aumentar a resiliência corporativa a ameaças e choques do macroambiente externo como, por exemplo, o aumento no preço de commodities;

– Capacidade de rastreabilidade por toda a cadeia de suprimentos para aumentar o nível de transparência e credibilidade em processos de compras, produção, armazenagem e distribuição;

– Investimento em innovability (inovação sustentável): eco-desing, P&D e inovação aberta para redefinir como produtos são projetados, fabricados, usados e reciclados;

– Desenvolvimento do pensamento estratégico e tático de longo prazo.

Alavancas de valor.

A imagem a seguir relaciona como as abordagens de gestão ESG podem acionar e potencializar alavancas de valor importantes para o aumento da competitividade e eficiência operacional das empresas:

Imagem baseada no estudo: The Business of Sustainability – MIT Sloan Management Review and Boston Consulting Group; interviews with thought leaders.
  • Contribuindo para a diferenciação das marcas e, como resultado disso, conferindo um maior poder de precificação de produtos e serviços;
  • Diminuindo custos e impostos; ocasionando um melhor uso de recursos; otimizando a cadeia de suprimentos,
  • Proporcionando habilidades às empresas para atrair, reter e motivar talentos, aumentando, dessa forma, a produtividade e diminuindo as taxas de turnover (rotatividade de funcionários).
  • Aumentando o market-share – cresce o número de pessoas que declara privilegiar produtos e serviços de empresas com imagens sustentáveis. Além disso, marcas reconhecidas como sustentáveis têm experimentado, também, a diminuição em suas taxas de abandono de clientes (churn).
  • Guiando empresas para novos mercados – A demanda por produtos e serviços mais sustentáveis não para de crescer e já são inúmeras as indústrias que estão diversificando suas linhas de produtos para atender aos chamados consumidores conscientes. 
  • Diminuindo riscos e facilitando acesso a capital – A consolidação de abordagens ESG contribui para que as empresas transmitam maior confiança ao mercado, favorecendo o acesso a financiamentos e seguros.

Mapeando e priorizando impactos ambientais, sociais e de governança.

Para incorporar a sustentabilidade de maneira consistente, as empresas devem, antes de tudo, mapear e priorizar os impactos socioambientais e de governança relacionados às suas operações de maneira objetiva.

Alguns líderes de negócios ainda definem de forma intuitiva os tópicos socioambientais e de governança que irão abordar em suas estratégias, muitas vezes seduzidos por temas que, aparentemente, repercutirão de forma mais atraente aos olhos de seus clientes e da opinião pública, mas, isso é puro e simples greenwashing.

Nas últimas décadas, muitas empresas, ao notarem o interesse crescente de consumidores por atributos mais sustentáveis, passaram a massificar campanhas publicitárias sobre as características “verdes” de produtos e serviços que, na verdade, não eram tão verdes assim.

Mais tarde, essa prática ficou conhecida como greenwashing ou lavagem verde e, hoje, está relacionada não apenas à “maquiagem” de produtos e serviços, mas, de empresas, também.

Logo, para mapear e priorizar os impactos ESG relacionados ao negócio, de maneira objetiva, siga esses três passos:

Primeiro passo:

Crie uma lista com os impactos ambientais, sociais e de governança mais significativos para o negócio, considerando riscos e oportunidades relacionados a cada um deles.

Dentro do possível, procure identificar onde os impactos ocorrem, olhando para toda a cadeia de suprimentos: matriz, fornecedores, fábricas, armazéns, distribuidores, pontos de venda e, até, pós-consumo.

Uma empresa do setor de alimentos, por exemplo, provavelmente terá que lidar com impactos como:

  • Segurança alimentar;
  • Eficiência hídrica e energética;
  • Resíduos pós-consumo;
  • Uso do solo;
  • Desperdício de alimentos;
  • Mudanças climáticas.

Segundo passo:

Identifique as principais partes interessadas da empresa e depois busque envolvê-las no mapeamento e na priorização dos impactos ESG que serão internalizados e tratados.

Partes interessadas são todas as pessoas, organizações ou entidades afetadas (ou que se dizem afetadas) pela empresa. Em contrapartida, elas também podem, potencialmente, afetar os seus resultados.

Alguns exemplos de partes interessadas são: clientes, fornecedores, governos, colaboradores, investidores, organizações não governamentais e comunidades próximas.

Abordar temas socioambientais e de governança apenas na perspectiva dos negócios pode induzir a erros de avaliação e a decisões equivocadas.

Afinal, como as empresas poderiam lidar de maneira pragmática com os impactos que produzem, sejam eles positivos ou negativos, sem levar em conta o quão relevantes eles são para suas principais partes interessadas?

Como poderiam oportunizar aquilo o que é percebido como bom ou confrontar os impactos que, na avaliação de seus stakeholders, depõem contra o negócio – sem riscos de estar praticando greenwashing?

Assim, os impactos ESG mais importantes serão aqueles estabelecidos a partir da intersecção de duas visões:

  • A significância dos impactos para a empresa, olhando para riscos e oportunidades;
  • A relevância dos impactos a partir da avaliação das principais partes interessadas do negócio.

Terceiro passo:

Tendo em vista que, geralmente, as empresas acabam por mapear mais impactos do que são capazes de gerir, priorize! Você pode fazer isso através de uma matriz de materialidade.

Matriz de Materialidade.

Após mapear os impactos ESG relacionados ao negócio, considere os eixos vertical e horizontal da matriz para atribuir valores quantificáveis para cada um deles.

  • No eixo vertical, estabeleça uma pontuação segundo a relevância dos impactos na avaliação e expectativas das principais partes interessadas do negócio;
  • No eixo horizontal, pontue os impactos segundo a sua significância para a empresa, considerando riscos e oportunidades.

No exemplo da nossa matriz de materialidade acima, os 3 tópicos materiais são:

  • Emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa);
  • Gestão da Biodiversidade;
  • Água.

Ética, transparência e consumo consciente.

Cada vez mais pessoas têm considerado aspectos éticos e de transparência em suas relações com as organizações. Em especial, os millennials (pessoas nascidas entre 1980 e 1994) que já são maioria no mundo e correspondem a cerca de 50% dos profissionais ativos, e a chamada Geração Z (nascidos entre 1995 e 2015) vindo logo atrás.

Mais atentos aos impactos socioambientais de produtos e serviços, os indivíduos dessas gerações têm adicionado, a cada dia, novos atributos de sustentabilidade aos fatores que pesam na hora de eleger aquilo o que irão consumir.

Eles têm buscado unir consumo a valores mais sustentáveis, querem sentir que podem fazer a diferença para o mundo através de suas escolhas diárias. E, agradecem quando designers de produtos e profissionais de marketing tornam isso possível.

Por isso, mais do que nunca, é preciso saber comunicar os atributos de sustentabilidade de produtos e serviços, dar poder aos consumidores para que possam fazer escolhas mais conscientes.

Isso representa uma extraordinária oportunidade para encorajar a intensão de compra, gerar credibilidade e adicionar valor às marcas.

Mas, é preciso transpor um primeiro obstáculo: um certo sentimento de desconfiança em relação às narrativas publicitárias que exaltam a sustentabilidade nos negócios.

Credibilidade à prova…

O termo “fadiga verde” traduz bem esse sentimento de desconfiança que, em parte, é reflexo da banalização do greenwashing nas últimas décadas e uma certa resistência das empresas em prestar conta de suas iniciativas.

O Edelman Trust Barometer 2020, estudo anual de confiança e credibilidade da Eldeman Intelligence revelou que para construir confiança, as organizações precisam levar em conta não apenas o que fazem, mas como fazem.

A pesquisa foi reforçada pelo Edelman Trust Management, ferramenta que monitora os índices de confiança das empresas em tempo real.

Ao analisar 40 companhias globais, constatou que fatores relacionados à ética geram 76% da confiança de uma empresa, enquanto a competência responde apenas por 24%.

Além disso, as novas gerações têm adotado uma postura mais vigilante. Através do ativismo, sobretudo o ativismo digital, têm cobrando um maior engajamento das marcas em relação a temas sensíveis, tais como: diversidade e inclusão, igualdade de gênero, racismo, homofobia, bem-estar animal, segurança alimentar, comércio justo…

Por isso, mais do que nunca, é preciso investir em transparência, lançar mão de ferramentas para ajudar consumidores e outros stakeholders a avaliarem os reais resultados das iniciativas socioambientais e de governança adotas. Veja algumas delas:

  • Normas e padrões para relatos de sustentabilidade.

Para demonstrar o cumprimento de critérios rigorosos para a elaboração de relatórios de sustentabilidade. Duas referências importantes de normas e padrões são o GRI Standards e o Integrated Reporting.

  • Selos e certificações independentes de sustentabilidade.

Alguns setores da indústria podem recorrer a selos e certificações independentes para demonstrar o atendimento a rígidas exigências socioambientais e de governança, por exemplo:

Leaping Bunny (Cruelty Free).

Fornecido quando uma marca do setor de beleza pode comprovar que a matéria prima e todos os seus produtos finais não são testados em animais.

FSC.

Assegura padrões elevados de sustentabilidade no manejo de madeira e papel.

The Fair Trade Certified.

Atesta elevados padrões econômicos, ambientais e sociais na produção e venda de diversos produtos agrícolas.

Leadership In Energy and Environmental Design (LEED).

Certifica melhores práticas de sustentabilidade no setor de construção.

Rain Forest Alliance.

Assegura o atendimento a exigentes padrões sociais e ambientais na produção de café.

Certificação ISO 14.001.

Certificação para sistemas de gestão ambiental. Estabelece padrões elevados para gestão de impactos ambientais, eficiência no uso de recursos naturais, transparência de dados, melhoria contínua de processos e conformidade legal.

Como dar os primeiros passos para incorporar o ESG aos negócios.

Felizmente, não existe um único caminho em direção à sustentabilidade, mas os primeiros passos quase sempre envolvem uma mudança de mentalidade.

Isso pode parecer óbvio, mas, na prática, requer de líderes de negócios e demais colaboradores um entendimento mais amplo sobre como lucratividade e resiliência a riscos estão intimamente relacionados a um desempenho socioambiental e de governança superiores.

A seguir, você vai aprender a dar os primeiros passos em direção à sustentabilidade empresarial percorrendo as 4 etapas relacionadas de um Ciclo PDCA: “plan, do, check and act” (do inglês: planejar, fazer, checar e agir), ferramenta bastante utilizada para a melhoria contínua de processos, produtos e serviços.

Ciclo PDCA para incorporar as dimensões ESG nos negócios.

Siga, passo a passo, as etapas a seguir e comece a incorporar as três dimensões ESG aos negócios, de maneira objetiva e sistematizada:

Plan (Planejar):

Na etapa de planejamento, pesquise e incorpore um framework de sustentabilidade empresarial reconhecido pelo mercado, isso ajudará a:

  • Introduzir questões ESG relevantes;
  • Fundamentar as primeiras decisões;
  • Criar uma linguagem comum;
  • Começar a envolver e a engajar colaboradores.

Veja, a seguir, alguns frameworks de sustentabilidade reconhecidos:

  • Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são parte integrante da Agenda 2030, lançada em 2015 pela Organização das Nações Unidas.

Os ODS foram criados para apoiar governos, organizações e representantes da sociedade civil em iniciativas capazes de contribuir para a construção de um mundo mais justo e sustentável. Os 17 ODS são:

  1. Erradicação da pobreza;
  2. Fome zero e agricultura sustentável;
  3. Saúde e bem-estar;
  4. Educação de qualidade;
  5. Igualdade de gênero;
  6. Água potável e saneamento;
  7. Energia limpa e acessível;
  8. Trabalho decente e crescimento econômico;
  9. Indústria, inovação e infraestrutura;
  10. Redução das desigualdades;
  11. Cidades e comunidades sustentáveis;
  12. Consumo e produção responsáveis;
  13. Ação contra a mudança global do clima;
  14. Vida na água;
  15. Vida terrestre;
  16. Paz, justiça e instituições eficazes;
  17. Parcerias e meios de implementação.
  • Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3).

Criado em 2005, o ISE foi financiado pela Internacional Finance Corporation (organização ligada ao World Bank) e desenvolvido pelo FGVces e B3.

Uma ferramenta voltada para avaliar o desempenho de empresas com sistemas de gestão marcadamente sustentáveis e listadas na Bovespa (são elegíveis as emissoras das 200 ações mais líquidas). Sua estrutura está organizada em 7 categorias temáticas:

  1. Geral;
  2. Governança Corporativa;
  3. Social;
  4. Econômico-financeira;
  5. Ambiental;
  6. Mudanças Climáticas;
  7. Natureza do Produto.
  • Global Reporting Initiative (GRI).

A Global Reporting Initiative é uma organização sem fins lucrativos sediada em Amsterdã e tem como missão ajudar empresas, governos e outras entidades a entender e comunicar os seus impactos econômicos e socioambientais.

GRI Standards é a versão mais atual das normas GRI, as mais utilizadas no mundo: cerca de 60% dos relatórios de sustentabilidade publicados, anualmente, por grandes marcas globais.

Para estarem em conformidade com essas normas, as organizações precisam atender a 10 princípios de conteúdo e de qualidade. Confira no quadro a seguir.

Os 10 princípios GRI.
  • Certificação Empresa B (B Lab).

A Certificação Empresa B foi desenvolvida pelo B Lab para aproximar os interesses comerciais das empresas aos interesses da sociedade, orientando as melhores práticas para a mensuração e comunicação de impactos socioambientais gerados.

As Empresas B Certificadas atendem a uma rigorosa avaliação de desempenho social, ambiental, de responsabilidade e transparência, de maneira totalmente tangível e mensurável. O desempenho dessas empresas é medido a partir de 4 temas centrais:

  1. Comprometimento do trabalhador;
  2. Envolvimento da comunidade;
  3. Impacto ambiental;
  4. Estrutura de governança.
  • Indicadores Ethos.

Disponibilizado pelo Instituto Ethos, Indicadores Ethos é uma ferramenta de gestão criada para guiar as empresas na implementação da responsabilidade social corporativa (RSC) em suas estratégias de negócios.

Os Indicadores Ethos foram desenvolvidos a partir de 4 dimensões temáticas, inspiradas na ISO 26000 (norma internacional com diretrizes para a Responsabilidade Social), são elas:

  1. Ambiental;
  2. Social;
  3. De governança;
  4. Visão e estratégia.

Definida a estrutura de sustentabilidade, a empresa deverá mapear os impactos socioambientais e de governança que causa ou influencia, sejam eles positivos ou negativos, presentes ou com repercussão futura, olhando para toda a cadeia de suprimentos. Feito isso, o próximo passo é definir a sua materialidade.

Ao tomar consciência dos impactos ESG que produz ou influencia (e priorizá-los) a empresa poderá, finalmente, esboçar um plano estratégico para internalizá-los, olhando, sempre, para os riscos e oportunidades relacionadas a cada um deles.

O passo seguinte é, de certa forma, uma consequência natural da etapa anterior: delinear os programas de sustentabilidade com seus objetivos, metas e planos de ação.

Aqui, algumas questões direcionadoras deverão ser aprofundadas para que seja possível simular retornos futuros e defender investimentos junto ao Chief Financial Officer (CFO), são elas:

  • Onde estamos e para onde queremos ir?
  • Quem serão as áreas envolvidas?
  • Quais os benefícios tangíveis e intangíveis buscados?
  • Como e quando pretendemos alcançá-los?
  • Com quais recursos e budget?
  • Quais os riscos envolvidos?

Do (Fazer):

Nessa etapa, deverão ser escolhidos os KPIs (do inglês, Key Performance Indicators ou Indicadores-Chave de Desempenho) para medir e acompanhar a evolução dos objetivos e metas relacionados aos temas materiais.

Como sustentabilidade é algo que vai além de um setor específico da empresa, a seleção dos KPIs deverá ser feita de maneira sinérgica entre os líderes das áreas que impactam direta ou indiretamente os temas materiais listados.

A empresa deve buscar, também, fazer benchmarking com marcas líderes em sustentabilidade – isso pode envolver parcerias e, até, a participação em redes de inovação aberta.

Nessa etapa, também deverão ser realizadas ações para a capacitação e engajamento de equipes, além de campanhas de comunicação interna para disseminar valores e premissas da sustentabilidade.

Check (Checar):

Chegamos ao ponto em que a empresa deverá refletir sobre os seus resultados iniciais, os primeiros desafios e oportunidades que se apresentaram.

Logo, todos os setores e lideranças responsáveis pelos programas e projetos de sustentabilidade deverão compartilhar suas experiências, tenham sido elas bem ou malsucedidas e buscar:

  • Identificar as causas de problemas que, porventura, tenham ocorrido;
  • Padronizar e otimizar as ações que geraram bons resultados.

Também, deverão realizar uma boa gestão do conhecimento gerado na fase de execução (Do) para possibilitar a melhoria contínua dos processos funcionais.

Por isso, antes de partir para a próxima etapa, as seguintes perguntas-chave deverão ser respondidas:

  • Determinado objetivo foi alcançado?
  • Caso sim, o que foi feito para gerar o resultado desejado?
  • É possível reproduzir ou melhorar as ações bem-sucedidas?
  • Caso o objetivo não tenha sido alcançado, quais as causas evidentes ou prováveis para o insucesso?
  • Que ações corretivas podem ser realizadas?

Act ou Adjust (Agir ou Corrigir).

A partir das reflexões feitas anteriormente, chegou a hora de corrigir as falhas e desvios de implementação, agindo para manter os negócios na direção dos objetivos traçados.

Após identificadas as causas dos problemas, as lideranças deverão estabelecer planos de ação para eliminá-las e, assim, corrigir desvios de percurso.

Nessa etapa, é momento, também, de desenvolver o relatório de sustentabilidade para tornar públicas as informações sobre impactos socioambientais e de governança gerados, reafirmando um compromisso de transparência com as principais partes interessadas do negócio.

O relatório de sustentabilidade também será valioso para que a empresa possa entender melhor os seus impactos e abordar de forma mais efetiva os aspectos ESG prioritários para o negócio.

Após fechar o primeiro ciclo de incorporação da sustentabilidade, as lideranças dos setores-chave deverão, então, apoiar a alta direção, contribuindo com ideias e sugestões para a elaboração da política de sustentabilidade da empresa.

A política de sustentabilidade deverá comunicar de maneira clara e específica os princípios, diretrizes e metas que irão guiar decisões relacionadas aos desafios socioambientais e de governança, além de recomendar a adoção de um código de conduta.

Deverá ser a maior referência para que os colaboradores possam guiar suas escolhas e decisões para uma atuação mais responsável nos negócios e em suas interações com outros stakeholders.

Completando as quatro etapas anteriores, garanto que você terá dado um passo seguro em direção à sustentabilidade empresarial e quando menos esperar estará caminhando em direção a objetivos ESG mais arrojados e ambiciosos.

Conclusão.

Ao contrário do que sugere o senso comum, iniciativas sustentáveis não rivalizam com sucesso financeiro, pelo contrário, são inúmeras as empresas que estão prosperando em seus mercados à medida em que incorporam escopos ESG ao seu core business.

Sim! Cada vez mais lideranças empresariais têm comprovado o poder da sustentabilidade para acionar e potencializar alavancas de valor, ora aumentando a competitividade das marcas, ora conferindo a elas uma maior resiliência a riscos.

Nessa direção, o primeiro passo é envolver as principais partes interessadas do negócio e mapear os impactos socioambientais e de governança mais importantes por toda a cadeia de valor.

Só assim será possível criar iniciativas ESG consistentes e agir de maneira virtuosa para promover o bem-comum.

Nesse artigo, você também aprendeu a dar os primeiros passos em direção à sustentabilidade empresarial através da execução de um Ciclo PDCA. Agora, você tem em mãos um poderoso guia para planejar e incorporar as dimensões ESG aos negócios, de um jeito totalmente prático.

Vá em frente e use as dicas acima para começar.

Ah! Aproveite e deixe a sua opinião nos comentários.

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